O estrondo da “inclusão”: Crônica de um congresso sobre nós, sem nós

O estrondo da “inclusão”: Crônica de um congresso sobre nós, sem nós

A Caixa de Sapato e o Verde Esmeralda

O convite prometia “elegância e conforto”. Mas, no dicionário não dito da normatividade, “elegante” é um código para “padronizado”. Esperavam-se calças sociais, tecidos rígidos e colarinhos que apertam a garganta, ignorando que, no calor dos trópicos, exigir que um autista cubra a pele seguindo a norma daqueles que não possuem hipersensibilidades não é etiqueta; é sufocamento.
A hipersensibilidade tátil não negocia com o dress code. Para mim, vestir uma calça naquele calor é convidar o gatilho, é drenar a bateria social antes mesmo de sair de casa. Fui, então, vestido de mim mesmo: bermuda verde esmeralda, camiseta preta solta (pois o abraço da roupa justa me fere) e tênis. Uma combinação lógica, limpa e sensorialmente segura.
Mas, ao cruzar a porta, percebi o primeiro paradoxo: um evento dedicado a discutir a neurodivergência esperava que todos se vestissem como neurotípicos corporativos. Eu era uma mancha verde e autêntica num mar de calças jeans e uniformes sociais. A primeira lição do dia foi silenciosa, mas clara: “Aceitamos o seu autismo, desde que ele venha embalado na nossa estética”.

102.3 Decibéis de Encenação

Entrei no auditório e fui agredido. Não por palavras, mas pela física. O som não estava apenas alto; estava bélico. As caixas de som cuspiam frequências que rasgavam o ar e a minha regulação. Olhei em volta, incrédulo. Haviam crianças no espectro, adultos autistas, todos submersos naquele oceano de ruído. Alguns, como eu, com seus abafadores como escudos em um campo de batalha.
Enquanto o ruído externo me espancava os sentidos como vidro moído, crescia dentro de mim um barulho ainda maior: a recusa inegociável de permitir que a minha voz fosse sufocada pela mesma frequência que me feria. Não durou dez minutos, e fui falar com a organização.
O diálogo que se seguiu foi a síntese do capacitismo estrutural:
— O volume está inacessível para autistas — alertei.

A resposta foi o receio de que, se baixassem, as “outras pessoas” não ouviriam.

E então, a oferta derradeira: “Você não quer um abafador?” Referindo-se a um abafador maior.

Eis a inversão brutal: em vez de baixar o volume da agressão, sugerem que eu aumente a espessura da minha armadura. Em vez de adaptar o ambiente (que é o princípio básico da acessibilidade), exige-se que o deficiente se isole ainda mais dentro de si mesmo para que a dita “inclusão” aconteça?

Olhei nos olhos dele e fiz a pergunta que precisava ser feita, a pergunta que rasga o véu da encenação:

 — Então vocês preferem priorizar os neurotípicos ao invés dos autistas, em um congresso sobre autismo?

Houve um silêncio breve.
Ele não negou. Ele consentiu.

Diante da exposição daquela verdade inconveniente, ele recuou e disse que falaria com a produção para baixar o volume.
Fui movido de lugar, para um lugar onde o som não estava tão alto.
Após sentar neste novo local, a primeira fileira reservada apenas aos palestrantes. Questionei novamente a produção: se ajustariam ou não o volume inacessível. E após a produção confirmar que haviam reduzido o volume das caixas de som que estavam à minha frente. Saquei meu celular, não para filmar, mas para medir a realidade. O decibelímetro marcou 102.3 dB. A norma regulamentadora NR-15 diz que isso é insalubre para qualquer ouvido humano por mais de uma hora. Mas ali, num palco onde se falava de “cuidado”, em uma imersão de 8h, praticava-se a tortura sensorial coletiva. Eu estava gastando as colheres de energia dos meus próximos três dias apenas para suportar a acústica do “acolhimento”.

O Palco da Lamentação e do Conserto

Enquanto meus ouvidos doíam, minha alma se contorcia com o que vinha do microfone. O congresso, em teoria sobre o futuro e a potência do autista, parecia um velório a céu aberto de expectativas frustradas.
Ouvi frases que tratavam o diagnóstico como uma sentença de morte: “Quando teve o diagnóstico foi uma escuridão”. Ouvi o luto pelo filho idealizado que nunca existiu: “O meu sonho era ele servir a Marinha, agora não vai mais”. Ouvi a obsessão pela normalização: “Só falta ele falar”, como se o autista não verbalizado fosse uma obra incompleta, um rascunho de gente. E, claro, a pedagogia do medo: “Muito medo dele regredir”. Era um desfile de “eu achava que ele não fosse falar” e “é muito difícil”.
Onde estava o autista naquelas falas? Ele não estava. Quem estava ali era a frustração dos pais e a arrogância clínica de quem vê o autismo como um erro de código a ser reprogramado. Fala-se em “olho no olho”, pede-se para a plateia “arregalar os olhos”, ignorando que, para muitos de nós, o contato visual forçado é invasivo, doloroso e artificial.
Fala-se em masking — o ato de esconder quem somos para sobreviver — não como uma tragédia de saúde mental que leva ao suicídio, mas como um detalhe curioso. Falam de nós como se não estivéssemos na sala. Ou pior: falam de nós como se estivéssemos quebrados.

A Distinção entre Ferramenta e Máscara

Que não se confunda a defesa da identidade com a recusa do desenvolvimento. Não nego, em absoluto, a importância vital da aquisição da linguagem, do treino de habilidades sociais ou da conquista da autonomia. O acesso à comunicação é um direito humano inalienável e a competência social é uma ferramenta de sobrevivência. O ponto nevrálgico da crítica aqui não é o aprendizado, é a finalidade dele. Há um abismo ético entre oferecer ferramentas para que o autista navegue o mundo com menos sofrimento e treiná-lo exaustivamente para que ele pareça não ser autista. O desenvolvimento deve servir à libertação do sujeito, expandindo suas possibilidades de agir, e não à sua domesticação estética para o conforto visual da sociedade. Queremos a fala para expressar nossa verdade, não para recitar o roteiro da normalidade; queremos habilidades para construir pontes, não para erguer fachadas.

A Verdadeira Rigidez Cognitiva

Houve exceções. Houve vozes que disseram: “Para a família é importante cortar o cabelo, para ele não é. Respeite a individualidade”. Mas essas vozes foram ilhas num mar de normatividade.
No início da tarde, exausto, desnorteado e sensorialmente espancado, levantei-me para sair. Caminhei pelo corredor lateral. A cada passo, sentia os olhares. Não olhavam para o meu rosto, mas para as minhas pernas descobertas pela bermuda verde. Naquele momento, a ironia se fechou com chave de ouro.
Dizem que nós, autistas, somos os donos da rigidez cognitiva. Dizem que somos nós que temos dificuldade de adaptação. Mas a verdade nua e crua é que nós passamos a vida inteira nos dobrando, nos quebrando, aprendendo a falar a língua deles, imitando seus gestos, vestindo suas roupas, suportando seus ruídos, abdicando da nossa identidade para caber nas frestas da sociedade. Nós somos os mestres da adaptação forçada.
Enquanto isso, em um congresso feito para nós, os neurotípicos foram incapazes de girar um botão de volume para a esquerda. Foram incapazes de aceitar uma bermuda no calor. Eles não conseguem adaptar um auditório, mas exigem que nós adaptamos nosso cérebro. Quem, afinal, sofre de rigidez cognitiva?
Ao cruzar a porta de saída, o silêncio da rua me abraçou. O caos urbano, com suas buzinas e pressa, foi mais acolhedor do que a “inclusão” que tentaram me vender lá dentro. A rua não tentou me consertar. A rua apenas me deixou andar.
Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2026
Micael Bergamaschi

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